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01/05/2015

Chegou para mais uma consulta, onde já só vinha de mês a mês, com os seus caracóis desalinhados e volumosos, enfeitados com uma fita que tinha como objectivo destapar a sua carinha redonda e olhos expressivos. Com a sua vivacidade de criança de 8 anos dizia-me:

-Sabes que agora os meus pais estão mais “namorosos”?

As crianças têm esta capacidade de criar, aglutinando palavras de acordo com o seu sentir! A intensidade estava impregnada no vocábulo e eu sei que também estava a sua satisfação e o prazer em poder descrever a relação dos pais desta forma…

O sofrimento dos filhos é enorme quando percebem, ouvem ou sentem, que os seus pais discutiram… ou, que se magoaram de alguma forma… ou, quando assistem à indiferença… ao desprezo… ao silêncio… ao receio… isto, para não abordar as situações limite…

Quanto mais tempo se fica sujeito ao ambiente onde a desarmonia impera, mais marcas vão ficando… pois, enquanto se é criança, as estruturas ainda apresentam maleabilidade e por conseguinte estão mais susceptíveis de absorver o meio sem o peneirar.

Se nos permitirmos visitar alguns lugares onde estivemos enquanto crianças, vamos encontrar vários episódios, que nos trazem a sensação de impotência, face a um acontecimento. Tudo, porque éramos pequenos no mundo de adultos. Ao ler esta frase decerto que já alguns momentos surgiram na sua memória, pois, estes ficam registados e têm grande influência naquilo que somos, e até, na forma como nos relacionamos com os outros ao longo da vida. Será sempre tempo de mudar, de reconstruir, de melhorar…

Mergulhe no mundo das crianças e oiça o seu coração:
Eu percebo e por vezes até sinto, o movimento, a agitação, a quietude, os barulhos… algo se passa e devo ficar mais atento, os meus sentidos estão todos em alerta… estou a ficar…“.

O desconhecido desencadeia medo, insegurança… O não saber o que se passa origina um quadro de maior ansiedade. Explique ao nível da criança o que se está a passar.

“Tudo era perfeito dentro do meu castelo, pelo menos era como me transmitiam… nas atitudes e nos comportamentos e de repente… não percebi o que se passou, o meu castelo… desmoronou-se”.

É mais fácil integrar uma separação entre os pais, se a criança for percebendo que foi algo progressivo no tempo, em vez de surgir como uma surpresa. Não tem necessariamente que haver discussões, mas a criança deve saber que existe algum desconforto.

“Lá no meu castelo vive… bem… não sei bem se vive… bem…, já nem sei onde vivo”.

Existem situações de separação que, ou não são assumidas, ou, são assumidas com pouca clareza. As crianças para construírem o seu eu equilibrado precisam da verdade, de ritmos, de consistência, de organização, de segurança. Estas situações continuadas no tempo desorganizam em termos psicológicos.

“Por vezes, quando me levanto sinto-me agitado, esquisito, não sei o que tenho…”.

Muitos casais optam por discutir depois das crianças/jovens estarem a dormir para que não oiçam… só que enquanto se dorme o cérebro continua a registar tudo à volta e sem filtro!

“Hoje senti a minha mãe triste e o meu pai com cara de poucos amigos… perguntei-lhes o que se passava e responderam-me: nada!!! A minha mãe diz sempre que não tem nada, ou então que está cansada, só isso! Mesmo quando a vejo com lágrimas nos olhos! O meu pai diz que tem sono e dores de cabeça, mas fica cá com uma cara que eu até tenho medo! Estou a ficar baralhado!”.

Para que as crianças possam entender as emoções, os pais devem expressar o que sentem e explicar, sempre que possível, porque estão tristes, alegres, preocupados, zangados, com medo… existem crianças que se mostram zangadas, mas estão é com medo, outras que estão tristes, e dizem que têm sono, e ainda outras, que adoecem, porque não sabem como se expressar…

Se se identificou com algumas destas situações e dentro do que for possível, no seu ritmo… as mudanças podem acontecer!!!

“Temos que nos tornar na mudança que queremos ver”, Mahatma Gandhi.

Cristina Santos

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