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Categoria: Blog

Abril 11, 2018

Por vezes é difícil fazer diferente. A automatização que usamos para lidar com a nossa vida faz com que estejamos a conduzir a nossa vida como conduzimos um carro: já nem sabemos em que mudança estamos. Uma abordagem de maior presença no aqui e agora ajuda. E hoje em dia temos ferramentas muito interessantes como o mindfulness. De facto podemos introduzir no nosso dia-a-dia pequenos momentos de paragem e de respiração, e ver o que acontece!

Mas podemos fazer mais, especialmente quando fazemos sempre o mesmo movimento – automatizado – e esperamos por resultados diferentes. Esta armadilha é comum: continuamos a responder da mesma forma aos outros, com a mesma energia, ou não saímos das nossas rotinas que nos dão segurança. Quando tudo está instituído e fazemos o mesmo há 20, 30, 40 anos, como fazer diferente? É quase como se não soubéssemos como! É possível, no entanto, colocar pequenas sementes no processo de desenvolvimento. Podemos começar fazer pequenos movimentos, alterar pequenas rotinas.

Deixamos aqui algumas questões para reflexão. Antes de responder, tente encontrar um lugar adequado para fazer este exercício sem interrupções. Respire primeiro, profunda e tranquilamente e tente responder com as primeiras sensações que surgirem. Não tem de surgir uma resposta única e lembre-se: não existem certos nem errados.

  • Estarei demasiado “automatizada/o” na minha vida?
  • Que movimentos “velhos” continuo a repetir e que gostaria de deixar de fazer?
  • Que movimentos diferentes/ novos posso inserir na minha rotina?
  • Preciso de grandes e repentinas alterações na minha vida, ou preciso de respeitar o meu ritmo mais lento?

Ana Caeiro

Março 28, 2018

Estávamos todos dentro dum círculo de giz branco num fundo negro.

Ninguém podia pôr os pés fóra do círculo de giz ou seria engolido pelo abismo.

Ouviam-se cânticos índios, todos cantavam e dançavam em volta de uma grande fogueira.

Os antepassados foram invocados e rapidamente alguns caíam em profundo transe.

A noite negra e estrelada rodeaxa o círculo de giz como se este estivesse perdido, solto, no meio do Universo.

Lentamente o círculo de giz ia rodando e arrastando todos com ele, como uma bola de neve gigantesca.

Do círculo saía uma luz intensa, branca, brilhante, numa explosão de vida, de força de energia.

Os cânticos ressoavam e um cheiro intenso de muitos aromas pairava no ar.

Todos estavam felizes, unidos, juntando os seus ancestrais saberes, para assim poderem evoluir como seres únicos e portadores dum segredo Universal.

Da união energética, fraterna, única, entre estas almas nasce uma cadeia de amor e protecção incondicional que, a pouco e pouco , vai mudando o Mundo.

Leonor Braga

Março 13, 2018

Pela manhã passeava pela estrada e olhava os caminhos que desconhecia, ía atenta para não me perder, seguindo pelo trilho assinalado.

Com atenção focada no que estava à volta, no ranger dos ramos das árvores, no cantar dos pássaros, na variedade de tamanho dos cogumelos que brotavam da terra húmida, nos tons de verde que tornavam aquele lugar singular, conseguia ao mesmo tempo ouvir a minha respiração no silêncio que me envolvia.

Não me esquecia de cada passo que dava porque, ao calcar as pedras irregulares nas quais tantas vezes tropecei, por estas teimarem em não abrir caminho à minha passagem – o que daria muito jeito -, ia sentindo o quanto o caminho era tortuoso! Numa ou noutra vez até me fizeram ir ao chão. Limpava os joelhos e continuava determinada em prosseguir.

Vieram os temporais, as chuvadas intensas, os caminhos difíceis de trilhar, veio a vontade de desistir… mas o sol acabava por brilhar, mesmo que não estivesse visível, aquecia o meu coração e aos poucos envolvi-me naquela paisagem paradisáca e fui-me abstraindo, ao longo do trilho, de tudo o que me rodeava, pois já estava em unidade com o meio.

Um certo dia dei por mim como que obstinada, a caminhar na direção duma pedra que vislumbrava lá ao longe, como se ela me chamasse… cheguei perto e observei… era muito bonita! Via-se que escondia algo dentro dela, algo valioso!

Decidi parar e ficar a contemplar. Passei dias e dias…

O que aquela pedra fazia no meu caminho? E que pedra especial era aquela?

Mais e mais perguntas invadiam a minha mente…

Peguei nela e fechei-a na mão, num gesto que egoisticamente dizia: “és minha!” Não podia perdê-la, queria sentir o que emanava dela.

Fui abrindo a mão aos poucos e permitindo que respirasse, que tomasse forma, que existisse tal como é, com a dureza que a carateriza, porém, com um valor inestimável pela grandiosidade da sua essência.

Ao mesmo tempo observei-a de várias perspetivas, vendo para lá da sua beleza, daquela beleza que todos podem apreciar… Já não está prisioneira do meu olhar, nem do enrijecimento das intempéries…

Guardei essa pedra preciosa junto ao meu coração até hoje…

Todos somos árvores, caminhos, flores, pedras… e Pedras Preciosas!!!!

Cristina Santos

Fevereiro 28, 2018

Era uma vez uma ostra que vivia no fundo dum mar lamacento e escuro.

Era difícil chegar-lhe a luz do sol, a claridade da água e a quentura das correntes.

Vivia na escuridão, no silêncio e no frio…

Os anos foram passando e a ostra fazia o mínimo para sobreviver.

Certo dia a ostra sentiu-se vacilar e soltar-se dos limos onde tinha vivido.

Veio uma violenta corrente, quente, poderosa, luminosa e arrastou-a para outras águas.

De início sentiu-se perdida, sem saber para onde ía… até que parou numa superfície macia, quente, translúcida e bela.

Onde estou?

Que lugar é este?

Nunca imaginei que existisse um lugar assim… será que morri?

A pouco e pouco foi-se abrindo, cada dia mais, até que sentiu um pequeno grão de areia, que naquele turbilhão, tinha entrado na sua concha.

Todos os dias o acariciava e beijava, falando-lhe de como se sentia feliz nesta nova vida.

Tinha luz, calor, transparência, alimento e o grão de areia ouvia-a atentamente e de dia para dia ia cescendo.

Uma bela manhã a ostra olhou para o grão de areia e viu que ele se tranformara na mais bela pérola que alguma vez vira.

Sentiu que por mais difícil e triste a vida tem sempre algo de precioso escondido, o que importa é ser capaz de se deixar levar pela corrente, sem medos, porque da escuridão e do lodo pode surgir a mais bela pérola do Oceano.

Leonor Braga

Fevereiro 15, 2018

Segundo um artigo publicado esta semana no site da BBC Brasil – que reproduzimos de seguida na íntegra -, existe uma forma de comunicação entre os cérebros.

Quem o afirma é Moran Cerf, professor de neurociência e negócios da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, na sequência de estudos que tem levado a cabo sobre a sincronia dos impulsos cerebrais entre seres humanos.

Um assunto interessante, que permite uma reflexão mais profunda sobre a forma como interagirmos uns com os outros e que indica, tal como sugere de imediato o título do artigo da autoria de Cecilia Barría, que a melhor decisão que podemos tomar na vida é escolher bem com quem nos relacionamos.

Ora, leiam:

Esta é a melhor decisão que você pode tomar na vida, segundo neurocientista que estuda felicidade

Os cérebros conversam entre si sem que a gente perceba? Pelo visto sim, de acordo com estudos sobre a sincronia dos impulsos cerebrais entre seres humanos realizados por Moran Cerf, professor de neurociência e negócios da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos.

Por mais de uma década, Cerf investiga como as pessoas tomam decisões, não só do ponto de vista comportamental, mas também utilizando eletroenfacelogramas que mostram as zonas do cérebro que se iluminam quando as pessoas reagem a diferentes estímulos.

E o que se tem descoberto é que, quando as pessoas passam tempo juntas, suas ondas cerebrais começam a se parecer e, em alguns casos, podem chegar a ser idênticas.

“Ao compartilhar (a companhia e experiências) com alguém, são produzidos alinhamentos entre os dois cérebros”, diz o neurocientista em entrevista à BBC.

Sincronia elétrica

Em uma das pesquisas, pessoas expostas a determinados comerciais de filmes geraram padrões similares de atividades em seus cérebros, em uma espécie de “sincronia elétrica” que pode ser observada na tela do computador.

“Duas pessoas que assistem aos mesmos filmes, leem os mesmos livros, que compartilham as mesmas experiências e que, além disso, conversam entre si, começam, após duas semanas, a mostrar padrões comuns em linguagem, emoções e até pontos de vista”, explica Cerf.

Por isso, segundo o pesquisador, a melhor decisão que se pode tomar na vida é escolher corretamente as pessoas que te rodeiam.

“As pessoas mais próximas a você têm um impacto na maneira como você se relaciona com a realidade maior do que se pode perceber ou explicar. E uma das consequências disso é se tornar parecido com essas pessoas”, diz o neurocientista.

“Se você escolhe um companheiro ruim e passa dez anos com ele, essa decisão vai ter um impacto significativo (na sua personalidade) e na sua vida.”

Como inventamos histórias

Em seus estudos sobre a forma como nossas escolhas afetam a nossa satisfação pessoal, Cerf distingue vários níveis.

Ele estuda as decisões que tomamos em um determinado momento, como essas decisões são lembradas a longo prazo e como as comparamos com as escolhas de outras pessoas.

O pesquisador diz que algumas pessoas têm grande habilidade para inventar narrativas ou contar histórias positivas sobre as decisões que tomaram.

“Tem gente que teve experiências muito difíceis, mas possuem essa incrível habilidade de usar o cérebro para reinventá-las ou reinterpreta-las. É uma maneira de sintetizar uma experiência particular ou a sua visão do mundo”, afirma Cerf.

A melhor ferramenta para a felicidade

E como podemos treinar o cérebro a fazer essa reinterpretação positiva de experiências ruins?

“É difícil começar a reinterpretar a realidade de uma determinada maneira quando você nunca fez isso antes. A ferramenta mais eficaz é rodear-se de pessoas que possuem essa habilidade”, aconselha o neurocientista.

“Se você passa tempo com essas pessoas, vai começar, progressivamente, a se sentir mais feliz. Vai acabar vendo o mundo de uma maneira mais parecida”, completa.

“É algo que vai ocorrer naturalmente, não é preciso fazer conscientemente. Essa é a vantagem do alinhamento cerebral.”

Cecilia Barría
BBC Mundo
10 fevereiro 2018

Direito de imagem: GETTY IMAGES

Janeiro 31, 2018

Dizem que chorar lava a alma, mas também dizem que os homens não choram. Diz-se muito daquilo que se sente. Assim que nascemos temos de chorar, para depois aprender a não o fazer. Aprendemos que essa é uma fragilidade que devemos esconder numa gaveta, junto com as lamechices, os corações cor-de-rosa, as festinhas e o “amo-te”.

Tal como tudo aquilo que podemos fazer como seres humanos otimizados que somos, o choro tem uma função, é importante. Da mesma forma que o medo tem uma base funcional importante na nossa vida, o choro é também essencial e não deve ser contido ou controlado. O problema surge quando aprendemos a lidar incorretamente com esta função que o nosso corpo sabiamente desenvolveu.

Saímos do túnel escuro ontem estivemos mais de 9 meses e todos os seres estranhos e de batas brancas que estão neste espaço tão iluminado ficam aliviados quando choramos. Depois deste momento, o choro é um aviso, uma arma e um problema. Servirá de termómetro enquanto os bebés vão crescendo. É uma arma quando o usamos como um meio para chegar a um determinado fim. É um problema porque se limitam as crianças desde bebés a não largarem as suas lágrimas, a não partilharem as suas águas com o mundo. Faz barulho. Não nos deixa dormir. Mostra fragilidade. Entre outras e outras e outras.

Passamos uma vida a não chorar. Contemos. Engolimos as emoções porque não é bonito mostrar. Então elas ficam, com armas e bagagens na nossa barriga que às vezes incha voluptuosamente, deixando antever um mar de sentimentos engasgados.

Quando decidimos olhar para nós, seja em terapia ou em trabalho de desenvolvimento pessoal, temos de olhar para esta nossa barriga. É preciso fazer abdominais emocionais para deixar sair aquilo que já não nos serve e que não conseguimos guardar mais. Mas estes abdominais são mais difíceis que os normais. Mais do que ao corpo, fazem doer a alma. Ou assim parece.

É por isso que os primeiros choros da vida adulta são insuficientes. Não são conectados, não lavam a alma e deixam-nos zonzos com a respiração que se (re)estabelece e com o chute de energia que sobe à cabeça e aos olhos em particular. Não choramos com a barriga e a descarga é falsa: há apenas a movimentação de alguma tensão de um lado para o outro no corpo. Mas nesta fase podemos continuar desconectados mas há o ressurgimento de uma vontade de olhar de uma forma diferente.

É quando mergulhamos intensamente em nós que navegamos na possibilidade de nadar nas nossas lágrimas: o choro é conectado e vem dessa barriga tão cheia que precisa de extravasar, mas delicadamente, pulsando lágrima a lágrima em cada inspiração e expiração.

Ana Caeiro, terapeuta em biossíntese.

Janeiro 16, 2018

O corpo era grande desajeitado, descoordenado, desgovernado, desnorteado, desengonçado, desmembrado, desalmado…

Seguia na sombra, na penumbra, oculto por entre os esconsos, os becos…

Entrava em tocas, buracos negros que o sugavam para o fundo. Até ao centro da terra.

Lá, bem no fundo, onde tudo era escuridão, solidão e desnorte, estava ele.

Não via, não ouvia, não cheirava, não tocava, não saboreava, não sentia….

O Corpo era uma massa perdida e informe.

Apenas conseguia pensar…

Mas não sabia o que pensar, como pensar ou para que lhe servia pensar…

Pensou então, que estaria ele, O Corpo, a fazer no centro da terra?

Porquê?

Para quê?

Começou letamente a tentar organizar o pensamento, mas tudo se desvanecia e transformava em névoa que desaparecia à sua volta.

A escuridão, que apenas pressentia, começou levemente a clarear, o silêncio, que só até ali conhecia, começou a marulhar, do ar parado nasceu uma suavíssima brisa, algo etéreo e doce invadiu O Corpo e começou a talhá-lo.

Tal escultor excitado e vibrante com a sua obra, o trabalho da Alma começara.

A pouco e pouco os sentidos iniciaram o seu despertar, pela fenda da terra Mãe uma luz resplandescente elevou o Corpo para a terra.

Uma força enorme puxou-o e finalmente ele viu a luz,os aromas, saboreou o sangue, ouviu a voz da mãe, e sentiu umas mãos quentes e doces em contacto com a sua pele.

Finalmente o Corpo tinha Alma!

Leonor Braga

Janeiro 4, 2018

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A maioria das vezes, quando iniciamos um novo ano, os nossos desejos são formulados ao redor do pensamento cliché de que com saúde – e já agora dinheiro no bolso – tudo se resolve!

Pouco refletimos sobre o que assim estamos a desejar de forma tão automática e ficamos sem entender o que queremos verdadeiramente.

Se pensarmos bem, nem mesmo a saúde e o dinheiro nos trazem paz, por isso, aqui ficam algumas sugestões de resoluções que podem melhorar a nossa vida neste início de 2018:

  1. Liberdade interna
    A liberdade é algo diferente da sensação que temos quando viajamos para algum destino paradisíaco, fazemos o que nos dá na vontade ou até mesmo da euforia que sentimos por não receber ordens.

Mesmo quem vive de um lado para o outro com uma mochila às costas, por exemplo, pode estar tão asfixiado como um workaholic de uma multinacional. E até mesmo quem tem como objetivo praticar o “bem” na vida pode estar tão preso nesse guião como a pessoa com maior má vontade do mundo!

A liberdade é um tipo de capacidade que nos permite deliberar com o mínimo de condicionamentos restritivos.  Aproxima-se mais da habilidade de deitar por terra aquela tentativa da nossa mente de solidificar a vida num frasquinho de certezas. Que tal começarmos a trabalhar nisso este ano?

  1. Desejos mais conscientes
    Se obedecêssemos de imediato aos seus desejos seríamos presas fáceis do egocentrismo, da arrogância, do consumismo, da gula ou, até mesmo, da necessidade compulsiva de apregoar a paz na Terra, afastando os amigos com a nossa atitude chata (!).

Do mais fútil ao mais altruísta, qualquer tipo de desejo que passe invisível ao radar do consciente irá levar-nos, inevitavelmente, de objeto de desejo em objeto de desejo, só para que fiquemos satisfeitos. E o resultado será apenas mais insatisfação.

  1. Capacidade de gerar felicidade
    Viver num ambiente onde a ternura abunda é até fácil, mas conseguir cativar um sorriso genuíno de alguém parece ter um efeito reverberante muito mais poderoso. Esta cadeia de cuidados e olhar atento ao caminho do outro cria um ciclo positivo de manifestações de carinho coletivo.

Ao nosso redor todos agradecem, sobretudo, quem mora connosco!

  1. Resiliência para os dias difíceis
    Cada ano traz novas oportunidades para nos agarrarmos àquilo que consideramos que nos fará felizes, mas esconde uma grande dose de sofrimento pelo apego.

O desafio é perceber que estamos idolatrando mais do que deveríamos, de modo a conseguirmos resistir ao impulso de ficarmos aprisionados na nossa própria alegria e, assim, incapazes de usufruir da vida com leveza.

Ao conseguirmos resistir ao impulso de ficarmos fechados numa ideia, lugar ou pessoa, os dias difíceis tendem a ser muito mais fáceis.

  1. Capacidade de negociar com os próprios desejos
    Se o nosso desejo é ter muito dinheiro no bolso, por exemplo, pode acontecer que nem toda a fortuna do mundo seja capaz de saciar o nosso desejo.

É fulcral que sejamos capazes de nos sentir bem com o que conseguimos, mesmo que não conquistemos tudo o que desejámos.

  1. Saber reconhecer os movimentos internos
    É fundamental que cada um de nós consiga desenvolver a capacidade de ter um GPS interno, que nos guie nas rotas pessoais. Aquela voz interior que nos ajuda a não nos perdermos de nós próprios, seja com atitudes impulsivas, reativas ou que estejam desconectadas dos nossos valores internos.

Saber mergulhar dentro de nós, antes de tomarmos grandes ou pequenas decisões de cabeça quente, é fundamental para não fechar portas ao nosso caminho.

  1. Lidar com a incompletude da vida
    Um passo importante é lidarmos com o facto de que sempre existirá uma dimensão de incompletude na vida. Na verdade, tornamo-nos num poço de inconformismo e insatisfação quando ainda mantemos a esperança de algum dia isso ser saciado.

Encarar a realidade da vida é imperioso: Em momento algum chegaremos ao topo da montanha, uma vez que, na vida, não há topo, nem montanha!

  1. Parar de sonhar com realidades mágicas
    Uma realidade mágica é tudo aquilo que nos causa angústia só de pensar, por ser muito grande, desprovido de senso de realidade e estar fora de nossa área de influência.

É importante tentar olhar ao redor e reconhecer a beleza que já existe na nossa vida, mesmo que seja numa porção fragmentada, manca, incompleta, estranha e contraditória.

  1. Assumir que nada acontece sem se lidar com o medo
    A concretização de uma meta estipulada não vai salvar a nossa alma e o nosso ano. Insistir nisto impele-nos a aprender a conviver com o medo constante do fracasso, da perda, do desapontamento, da rejeição e do “quase”.

Ao desejarmos garantias absolutas e nenhum medo, apenas estamos a mostrar que não entendemos nada sobre atingir metas. Aquilo que consideramos que desejamos mais do que tudo só tem essa magnitude pois está fora da nossa zona de conforto.

  1. Parar de considerar que as listas são autorrealizáveis
    As listas onde enunciamos os nossos objetivos ainda não têm o poder de se realizarem apenas porque sentimos do fundo do coração que “é agora”!

Para concretizar cada item, é preciso pequenas doses de treino diário. São posturas mentais, não treino físico, mas que exigem a mesma disciplina que para terem resultado. Apenas a boa vontade não resolve nada.

De acordo com a lista de cada um, devemo-nos sempre questionar: Vou realmente limitar-me a isto? O que realmente desejo? Posso facilitar a vida de alguém? Estou preso ao meu sofrimento? Estou conectado aos meus valores? O que se passa dentro de mim? O que não aceito nesta vida? Estou a olhar para demasiado longe de mim? Posso lidar com este medo?

Feliz ano novo!

* Adaptado de um artigo da autoria de Frederico Mattos, publicado no site brasileiro Papo de Homem.

Dezembro 21, 2017

Era véspera de Natal, dia 24 pela manhã, lá iam eles cumprir com aquela que já era uma tradição da mãe, com os seus filhos e sobrinhos.

Era aquele dia do ano que servia para reforçarem os laços e perpetuar as memórias para toda a vida.

Fizesse chuva ou frio, não era a intempérie que os impedia de fazerem aquilo a que se propunham todos os anos.

Iam com os corações cheios e o porta-bagagem com mantas, roupas, comida, flores…

Para contrabalançar o assalto aos centros comerciais, as compras, os doces, o corre-corre da época, eles moviam-se descompassados, dando tempo ao tempo, vivendo intensamente cada minuto daquele dia e absorvendo cada vivência.

Havia um roteiro pré-definido, em primeiro lugar iam aos cemitérios, onde cuidavam e colocavam flores nos familiares (bisavós, tias e tios) e amigos.

Só essa caminhada realizada entre o frio e o vento – onde habita uma estranha paz e se contavam histórias e se fortificavam as raízes – foi a forma que encontraram de prestar homenagem às suas vidas.

“Conta mais!” Diziam eles, com aquela curiosidade que carateriza as crianças. Via-se nos seus olhos que se construíam em cada memória, em cada história…

A Mãe acreditava que para sermos como árvores fortes que resistem às tempestades precisavam de conhecer cada fio da sua raiz, para que esta possa buscar o alimento que precisa para permanecer robusta e viçosa.

“A nossa vida faz parte de um sistema que se constrói a partir de cada antepassado, onde as suas histórias de vida, os seus segredos, as mortes precoces, a dor, as vitórias e conquistas… tocam no nosso eu…” Estas eram só algumas das muitas explicações que a Mãe dava e que os Filhos e os Sobrinhos escutavam como se escuta uma música que se gosta muito!

“É importante reconhecer a importância de cada pessoa da nossa família, mas chegou a hora de não nos esquecermos de todos os que sofrem e todos aqueles que abdicam das suas vidas para cuidarem dos enfermos e dos desfavorecidos…”.

Esta conversa antecipava a ida à porta do hospital, onde sempre faziam um minuto de silêncio (acabava por ser sempre mais), desejando e enviando toda a energia translúcida das suas almas.

Com sentimento de pesar por todos aqueles que não tinham a sua sorte, continuavam a viagem.

Quando as luzes de Natal já brilhavam nas ruas, entregavam cobertores, roupas quentes e uma pequena ceia a cada sem abrigo que encontrassem…

“Tia, tia, porque está a desfazer o bolo e a dar ao cão?” Perguntava o sobrinho muito triste, ao ver aquilo que entregavam com tanto amor ser dado ao animal.

“Sabes, as pessoas que vivem nestas condições já passaram por muito, é natural desconfiarem das nossas intenções, ou, quem sabe, se quis partilhar com o seu melhor amigo? “ Explicou a tia, duvidando da segunda opção.

Quando caía a noite, de regresso a casa, entre as luzes dos faróis que se cruzavam numa azáfama única, o silêncio imperava, mas o ruído dos pensamentos fazia sentir-se…

Já na consoada e em família, a Mãe sentia que o corpo vivia aquele momento, mas a Alma, essa, leve como uma pluma e sem ninguém dar conta, encontrava-se com o Espírito do Natal e juntos pairavam em cada lugar, revisitavam cada pessoa, viviam de novo cada instante…

Cristina Santos

Dezembro 13, 2017

No passado dia 8 de dezembro reunimos na Sintricare para falar da relação que temos connosco. Falámos de autoestima, amor-próprio e autocompaixão. O encontro começou com uma questão: qual é o melhor momento da nossa vida? Quando eramos bebés e sem preocupações? Quando somos jovens adultos, cheios de energia e a ganhar independência financeira? Cada fase tem desafios.

Assim, o maior desafio que temos nas nossas vidas pode não ser atingir a felicidade, mas sim estarmos na melhor fase das nossas vidas, precisamente no momento em que nos encontramos, com tudo o que isso traz. Sejam encontros ou desencontros. E a relação que temos connosco é a base de tudo isso.

Na perspetiva apresentada, a autoestima foi definida como forma de valorização pessoal e enquadra a forma como olhamos para nós, como nos cuidamos e estimamos. É como que uma avaliação subjetiva que fazemos a nós próprios e que pode ser positiva ou negativa. O amor-próprio define a relação connosco, o quanto nos amamos ou não… A autocompaixão reside na base destas duas dimensões e é acedida quando estas estão equilibradas.

Antes de referirmos o que é a autocompaixão, sublinhámos neste encontro aquilo que não é: egoísmo, exigência, piedade, fraqueza, pena, censura… A autocompaixão surge então quando encontramos um lugar de respeito por nós e onde podemos ser compreensivos, gentis, honestos connosco, com os nossos limites, sem nos sentirmos culpados e acima de tudo, sem crítica.

De facto, a autocrítica é a maior inimiga da autocompaixão e é muito importante observarmo-nos para identificarmos os nossos processos: quando é que pegamos no “chicote”? A partir daí, como é que podemos negociar connosco e evitar a autocrítica? Como podemos encontrar um lugar onde, contactando com o nosso lado saudável, podemos ouvir as nossas dificuldades, dar-lhes algum espaço, sem nos deixarmos levar por elas, como se fossem o canto da sereia?

Respeitar o nosso ritmo é fundamental, pois permite manter o nosso comboio a andar à nossa velocidade, sem ser empurrado pelas necessidades dos outros. E para isso é importante termos tempo para nós, respirar, fazer algo que gostamos, apreciar a vida, viver com prazer! Nem que seja um minuto por dia, aumentando sempre a fasquia. Quanto tempo a mais ganhamos no final do mês? Vamos tentar?

Ana Caeiro