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Categoria: Blog

Maio 23, 2019

Hoje, no blogue da Sintricare, publicamos na íntegra o artigo de opinião publicado no site do Público, “A psicoterapia e as outras terapias”, da autoria da psicóloga clínica e autora do blogue Agir e Sentir, Isabel Filipe, que enfatiza a importância da psicoterapia para o nosso bem-estar e crescimento pessoal. Como a própria afirma “estarmos bem é um trabalho a tempo inteiro, que exige uma multiplicidade de instrumentos”. Tirem uns minutos e aproveitem para ler!

“A psicoterapia é valiosa e construtiva, não se tratando de uma simples conversa ou mezinha. O nosso crescimento pessoal não é proporcional às conversas de café ou de cabeleireiro.

A psicoterapia é uma forma extraordinária de termos um espaço nosso, privado, tranquilo, seguro. É o sítio certo para ventilar o stress quotidiano, libertando-nos para tempo de qualidade com amigos e família ou para usufruirmos bem da nossa própria companhia. Acima de tudo, é uma fenomenal forma de aprendermos mais sobre nós próprios, compreendendo o nosso percurso e tendo orientação para desenvolver competências pessoais que nos levem ao melhor de nós.

O que há para não gostar? O preço. A intensidade emocional. A lentidão do processo. Tudo isto seria pertinente, se a nossa saúde mental não fosse a espinha dorsal do nosso bem-estar. Mas é-o. O melhor esforço que podemos fazer por nós e pelas pessoas a quem queremos bem é cuidar de nós próprios. A terapia permite-nos isso, pese o facto de não ser uma solução mágica. Embora possa ser pautada por momentos densos e complexos, o evoluir desta parceria com um psicólogo é algo de muito compensador. Se a pessoa a quem vamos confiar a nossa intimidade nos recordar de um colega de trabalho que não apreciamos, é evidente que não iremos longe. Importa existir empatia, uma química saudável, construtiva e enriquecedora. A confiança terapêutica no nosso terapeuta permite, em conjunto, trilhar um percurso bem-sucedido.

Diz-me a literatura e a experiência clínica, que os millennials priorizam, sem pudores, a saúde mental, física e espiritual, de uma forma mais veemente do que qualquer outra. Bem-estar constante e prazer imediato são impulsionadores da procura de suporte, em duas frentes importantes.

Por um lado, há quem recorra a alternativas mais “rápidas” e “de solução imediata”, como terapias alternativas, apoio espiritual ou mesmo procura de respostas em livros ou vídeos motivacionais, cada vez com mais destaque nas montras de consumo. Embora estes recursos possam estimular ferramentas interessantes, investirmos apenas e consecutivamente nestas orientações externalizadas, sem tempo para reflectir ou responsabilizar-se, encontrando respostas que façam sentido, pode não ser salutar. Nestes casos, a psicoterapia pode representar uma enorme mais-valia, permitindo personalizar esta aquisição de material cognitivo.

Por outro lado, há quem, com facilidade e muito cedo na sua fase adulta, inicie consultas de Psicologia, procurando conhecer-se melhor, optimizar competências pessoais e compreender o seu comportamento. Acredito que a segunda opção é mais duradoura e eficiente, embora mais morosa e dispendiosa. Contudo, a nossa saúde mental é uma prioridade, um dos pilares mais significativos da nossa edificação pessoal, compensa todo o investimento.

Não desconsidero as terapias e opções alternativas, podem ser um suporte útil e uma fonte de riqueza espiritual. Da complementaridade entre estas a Psicologia pode surgir uma sinergia interessante, cada uma com as suas especificidades bem definidas, sendo fulcral estarem presentes critérios como profissionalismo, boa formação e devida competência, de todos os profissionais envolvidos.

Ser adulto é um desafio, pelo que obter um conjunto de factores protectores, mediante as crenças e valores pessoais, apenas pode apresentar um cunho positivo. A psicoterapia é valiosa e construtiva, não se tratando de uma simples conversa ou mezinha. O nosso crescimento pessoal não é proporcional às conversas de café ou de cabeleireiro. Estarmos bem é um trabalho a tempo inteiro, que exige uma multiplicidade de instrumentos. O mais importante é usá-los com inteligência e empenho.

Isabel Filipe, Psicóloga clínica e autora do blogue Agir e Sentir

Maio 9, 2019

No artigo de opinião publicado no site da revista Sábado, Sofia Ramalho, Vice-Presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses defende que a ciência psicológica ocupará “as agendas humana, sociopolítica e económica” e será a profissão para o século XXI. Para que percebam as razões por detrás desta afirmações, reproduzimos aqui, no blog da Sintricare, este artigo na íntegra.

“A sociedade afigura-se cada vez mais assoberbada de frenesim, de horas infindáveis de trabalho e altos índices de stress, de telemóveis ou outros aparelhos eletrónicos ligados à corrente humana 24 sobre 24 horas, comportamentos que se vão transformando em hábitos tóxicos, crónicos e inconscientes, a par com profundas alterações sociais, situações de pobreza e de degradação humana, alterações ambientais e catástrofes pelo mundo fora. Ao mesmo tempo o ser humano e a sociedade compadecem-se com uma carência existencial e de tempo, de humanismo, de relações saudáveis e de afetos.

Creio, ainda assim, que estas circunstâncias não determinam tudo. A capacidade de ajustamento do ser humano às mudanças e aos desafios, em resistir às intempéries sociais e emocionais, a capacidade de recuperação face às adversidades ou a situações traumáticas são importantíssimos, e a ajuda psicológica pode tornar-se reguladora, capacitante e transformadora. Afinal, para grandes problemas, nem sempre são necessárias grandes soluções e a Psicologia, com pequenas ações de intencionalidade sistemática, é um bom exemplo disso mesmo e constitui um excelente instrumento de intervenção pessoal ou numa população. Creio ser um dos melhores investimentos pessoais ou sociopolíticos de todas as gerações.

A ciência psicológica ocupa e ocupará as agendas humana, sociopolítica e económica e protagoniza a profissão para o século XXI. Nela se encontrarão as soluções para o custo físico, psicológico e económico da doença. Nela se encontrarão as soluções para o custo de décadas de falta de escolarização, (des)educação, (de)formação e (des)envolvimento de competências que não puderam ser colocadas ao serviço da produtividade no trabalho, da participação cívica e da própria governação. Nela se encontrarão as soluções para o bem-estar, para a satisfação com a vida familiar ou social, para retomar a confiança nas relações interpessoais e nas instituições e demais entidades que servem a sociedade. Nela se encontrarão as soluções para o profundo desenvolvimento humano e da sociedade. A Psicologia, enquanto ciência para o século XXI, está cada vez mais focada em investigar as variáveis psicológicas subjacentes aos comportamentos, ajudando as pessoas a fazer escolhas que promovam o bem-estar e a sua saúde nos seus diferentes contextos de vida.

São estes mesmos comportamentos individuais (e os seus desvios) que determinam frequentemente os comportamentos sociais e afetam toda uma economia, política e sociedade. Mas são também estes mesmos comportamentos individuais ou sociais, para os quais a ciência psicológica propõe metodologias de mudança, que aplicados na prática aos diferentes fenómenos económicos, políticos e societais, são capazes de produzir as ditas soluções micro para problemas macro.”

Março 28, 2019

1. Menos é mais!
Simplificar. Torna-a a tua palavra de ordem, nos pensamentos, nas tuas ações, mas também nas emoções. Quando estamos habituados a ter os mesmos pensamentos é difícil larga-los, pois é tudo muito automático. Então, quando começa o novelo da complicação na tua cabeça, torna-te no/a realizador/a do teu filme e diz corta! Transforma as frases feitas e velhas crenças e decide simplificar. Leva esse mote para as tuas ações: o que é que é demais? E como pode a emoção acompanhar tudo isto e ajudar-te a arrumar a tua casa interna?

2. Um aqui e agora suficientezinho
Estar no aqui e agora é fundamental. No entanto e como em tudo, é preciso conta, peso e medida. O que faz sentido para mim é trabalhar na possibilidade de estar aqui e agora, mas sem renegar o passado, e mantendo abertura e planos para o futuro. O passado existe, embora não o possamos mudar. Ainda assim podemos mudar a forma como olhamos para ele, desde aqui, do presente. Então, não renegues o que te aconteceu até aqui, trabalha com isso. E estar no agora sem olhar para o futuro pode ser tão errado como estar sempre na ansiedade do que aí vem. É importante fazer planos, ter objetivos!

3. Respira…!
Claro que respiras, senão não estarias a ler isto neste momento… Mas será que respiras plena e profundamente? A respiração superficial pode ser uma defesa para não entrares em contacto com as tuas emoções. Num percurso de autoconhecimento e de desenvolvimento pessoal, é importante fazer essa reconexão com o corpo através da respiração. E a respiração é também uma ferramenta para lidar com a impulsividade. Uma inspiração profunda dá-te tempo e espaço para poderes reagir de forma diferente. Experimenta!

4. Entregar e confiar
Este é um mantra desafiante. É difícil confiar na vida quando somos muito rígidos, controladores ou por colecionarmos uma série de más experiências. A vida “disse-te”: não confies, conta só contigo, movimenta-te no que é confortável para ti. E ao longo do tempo, acreditas nisso e crias essa realidade. Mas é possível criar uma realidade diferente, passo a passo. E começa por entregar e confiar que a vida te vai dar o que tu precisas (mas não aquilo que queres…). E isto não é ter a expetativa que algo vai mudar, é criares dentro de ti a base para que ocorram pequenos novos movimentos de abertura que permitam receber algo novo! E com novas experiências, seguras, talvez seja possível dares esse passo (que internamente queres dar há tanto tempo…!).

5. Autocompaixão
A autocompaixão é uma palavra e um conceito que me faz muito sentido. Para mim engloba a autoestima, amor próprio, autoimagem… E é diretamente afetada pela autoexigência e autocrítica. Vejo-a como uma balança: se pende para a crítica e exigência, então não há lugar para a autocompaixão. Se estás bem contigo, cuidas de ti interna e externamente, então há uma sensação de bem-estar contigo, de serenidade. Cultivar a autocompaixão é cultivar a relação contigo. Semear o autocuidado, proteger contra a chuva da autocrítica, as pragas da exigência e adubar com muita nutrição.

6. Autorresponsabilidade
Tomar as rédeas da tua história exige que sejas responsável pela tua vida. Se colocares a responsabilidade da tua história em algo externo a ti ou em alguém, estás a despojar-te do teu poder e estás a despedir-te da função de agir sobre a tua vida. Não te despeças e faz um contrato efetivo e sem termo: a vida é tua! Sim, existem coisas que não controlamos, mas não é sobre isso que te falo aqui. A todo o momento tomas decisões, decide então ser a/o CEO da tua vida. Cuida de ti e transforma-te, sem a expetativa de que o outro mude e sem o responsabilizares por aquilo que é o teu trabalho.

7. Decide não decidir
Pode perecer um pouco louca, mas é uma frase que ajuda, num determinado momento, não só a não tomares decisões de impulso, como em dares tempo ao processo de tomada de decisão. Claro que decidirás, mas por um instante, aquieta a tua mente e decide não decidir, por um momento que seja. E deixa-te usufruir da possibilidade de não “teres de”. Respira, inclui leveza e decide mais à frente (mas sem protelar).

Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese.

Março 13, 2019

Esta terça-feira, dia 12 de fevereiro, realizou-se um Encontro internacional em Lisboa, mais concretamente na reitoria da Universidade de Lisboa, que reuniu membros de governos e investigadores em torno do tema da felicidade e, sobretudo, de como a felicidade pode ajudar a evitar conflitos e a promover políticas de bem-estar. A Sintricare considerou tão interessante esta iniciativa, que publica aqui, na íntegra, o artigo da autoria da jornalista Bárbara Wong, publicado no Público, sobre esta proposta da World Happiness Summit (Wohasu na sigla inglesa).

Como a felicidade ajuda a evitar conflitos e a promover políticas de bem-estar
Encontro internacional em Lisboa reúne membros de governos e investigadores em torno da felicidade e do bem-estar.

O que tem a ver a felicidade ou a paz com o desemprego? E com a educação ou a saúde? Tudo, acredita Helena Marujo, coordenadora da cátedra de Educação para a Paz Global Sustentável da UNESCO. Nesta terça-feira, na reitoria da Universidade de Lisboa, discute-se como a felicidade, o bem-estar e a “paz positiva” pode ajudar ao desenvolvimento dos países. A proposta é da World Happiness Summit (Wohasu na sigla inglesa), que vai reunir membros de governos de 25 países com especialistas internacionais em economia, política, sustentabilidade, saúde, felicidade, bem-estar e psicologia positiva. A reunião chama-se H20, à semelhança do G20, sendo que o “h” é de “happiness”, felicidade.

Esta é a terceira vez que se faz um H20, mas a primeira fora dos EUA – os encontros anteriores foram sempre em Miami, EUA. Portugal faz parte de um grupo de seis países que assinaram a declaração conjunta da Coligação Global para a Felicidade e esta é uma das razões para ter sido escolhido como país anfitrião deste encontro. A Wohasu trabalha em parceria com a FreeBalance, uma empresa de software para ajudar países em situação de pós-guerra a reequilibrar a sua economia e a diminuir a corrupção, e que promove o Relatório Global sobre Políticas de Felicidade e de Bem-estar, ou seja, como é que os países aplicam os estudos já feitos nestas áreas nas suas políticas públicas. “O retorno à paz passa pelo conhecimento científico sobre a felicidade. Em perceber como medir e aplicar indicadores subjectivos, em vez dos objectivos como os económicos”, declara Helena Marujo, coordenadora do Executive Master de Psicologia Positiva Aplicada, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP/UL).

Recorde-se que o Butão já tem um indicador de Felicidade Interna Bruta; que os Emirados Árabes Unidos têm um Ministério da Felicidade, e que o Reino Unido tem um Ministério da Solidão, a pensar em políticas de bem-estar para os milhões de pessoas que vivem sozinhas. “Já existe muita investigação que pode ajudar a tomar decisões políticas. Por exemplo, há países que investem mais na prevenção da saúde mental, do que no seu tratamento”, exemplifica Helena Marujo, acrescentando que a ex-presidente da Costa Rica, Laura Chinchilla, é uma das palestrantes em Lisboa, porque o seu país foi considerado o mais feliz do mundo no que à pegada ecológica diz respeito.

Outro dos temas do encontro será a “paz positiva” que é diferente da “paz negativa”, informa a investigadora que também é autora de um estudo sobre a felicidade dos portugueses. A segunda é quando os países procuram impedir ou controlar conflitos, enquanto a primeira é “promover condições de felicidade para os seus cidadãos”, de modo a que os conflitos não surjam, explica, dando um exemplo concreto, o desemprego. “Há duas experiências que têm um impacto brutal na vida das pessoas: a viuvez e o desemprego. Um país que faz uma aposta grande na redução do desemprego, está a fazer um trabalho enorme na promoção da felicidade e do bem-estar porque o desemprego é mais do que a insegurança económica, é perda de identidade, de auto-estima, de realização e pode levar a conflitos.”

A felicidade não requer apenas condições materiais, mas também boa saúde (mental e física), educação, governos sem corrupção, empresas preocupadas, “e a liberdade de cada pessoa de prosseguir os seus sonhos”, aponta o relatório da Wohasu. “Queremos trazer uma linguagem nova à política e também uma nova reflexão pública, de maneira a assegurar que maior bem-estar não está só relacionado com a economia, a princesa das Ciências Sociais, mas com outras áreas das Ciências Sociais que conseguem ler o que se está a passar no mundo”, termina Helena Marujo.”

Fevereiro 27, 2019

Março é o mês do Carnaval!
Reza a história que estas festividades começaram com os gregos, como uma festa pagã e que foi posteriormente anexada às festividades da Igreja Católica. Celebrando-se sempre a uma terça-feira, 47 dias antes do Domingo de Páscoa, era o momento de celebrar e de usar uma máscara, antes dos períodos de jejum e privação da Páscoa.

Apesar de encontrarmos diferenças entre países e até mesmo entre regiões dentro do nosso próprio país, o Carnaval está associado à diversão e ao disfarce. Miúdos e graúdos desfilam pelas ruas, divertidos, podendo ser, por um dia, uma personagem diferente.

E nós?
E nós, no dia-a-dia, seremos também personagens? Usaremos máscaras quando lidamos com os outros ou até mesmo connosco? De facto, quando, no nosso crescimento e desenvolvimento, lidamos com situações difíceis, criamos estratégias que nos permitam ultrapassar momentos mais dolorosos. Ao criarmos essas estratégias, vamos construindo uma máscara com a qual contactamos com o mundo lá fora, que num dado momento nos falhou ou magoou.

No processo terapêutico ou de desenvolvimento pessoal, é muito importante identificarmos esses movimentos, respondendo a questões como:

– O que foi difícil para mim, durante o meu crescimento? Como lidei com isso? Que estratégias encontrei para ultrapassar situações dolorosas? Como compus a minha máscara? Ela ainda é útil hoje?

As nossas estratégias ou máscaras são fundamentais. De facto, elas permitem-nos lidar com o sofrimento, mesmo que seja a simples negação da sua existência, por exemplo! No entanto, quando estamos nos desafios da vida adulta, estas respostas já não se coadunam com o que a vida nos pede. E aí respondemos às novas questões com movimento velhos, que já não servem. Isto causa desconforto, desconsolo, ansiedade…

Por isso é tão importante o autoconhecimento! Como podemos nós, através de um melhor conhecimento do nosso processo, da nossa história, revisitar a dor, transformá-la e encontrar um caminho novo!

Bom Carnaval!

Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese

Fevereiro 13, 2019

Um dia, escreve o psicólogo Pedro Taborda na sua crónica do Público publicada a 17 de Janeiro, “ir ao psicólogo será tão natural como ir ao médico de família”. Uma tão ideia fundamental para o estado da saúde mental em Portugal, que a Sintricare decidiu partilhar, aqui no blog, este texto na íntegra. Para ler atentamente e refletir:

“PPP: ponto de situação da Psicologia em Portugal
A Psicologia vive ainda assombrada por mitos dos quais só se libertará quanto se afirmar como ciência merecedora de mais espaço público e mais valorização. Quer pelas pessoas, quer pelo legislador. Um dia, espero que para breve, ir ao psicólogo será tão natural como ir ao médico de família.

Foi na década de 60 que se criou e leccionou o primeiro curso de Psicologia em Portugal. Desde aí, foi preciso chegarmos à década de 80 para que a Psicologia fosse considerada uma licenciatura, tal como já eram na altura as outras ciências. Desde então, os avanços da ciência psicológica em Portugal têm sido tímidos e feitos de conquistas importantes, mas que passam muitas vezes despercebidas à sociedade civil.

Fomos contribuindo nas escolas, nos hospitais, nos centros de saúde, nas prisões. Recentemente, fomos chamados a prestar apoio às vítimas de Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos, na sequência dos fogos que devastaram as regiões.

Autênticos agentes da mudança, os psicólogos contribuem de forma activa na e para a sociedade, através, por exemplo, da promoção a saúde mental, do sucesso escolar, de novas formas de recrutar, de orientar carreiras, de prevenir comportamentos, de actuar sobre conflitos ou aconselhar e avaliar.

Hoje em dia, não é por falta de profissionais competentes que faltam nos estabelecimentos prisionais psicólogos de acompanhamento ou para contribuir para uma bem-sucedida reinserção profissional.

Hoje em dia, não é por falta de profissionais competentes que faltam nas escolas psicólogos para orientação profissional para os alunos em transição, ajudar a lidar com emoções, motivação ou insucesso.

Hoje em dia, não é por falta de profissionais competentes que as pessoas não usufruem de serviço de psicologia em hospitais ou centros de saúde, para puderem viver sem sofrimento.

Então, se não será por falta de profissionais, por que é que as respostas continuam a ser insuficientes? Que espaço falta à psicologia reivindicar? Por que é que continua a existir um psicólogo por agrupamento escolar? Por que é que os centros de saúde e as administrações hospitalares não têm mais margem de manobra para reforçar os seus quadros de pessoal em matéria de saúde mental? Por que é que continuamos a valer-nos de estágio em estágio, em vez de apostarmos em carreiras continuadas e fortalecidas? Carreiras essas que beneficiariam os destinatários das nossas intervenções, pela estabilidade oferecida no acompanhamento.

Segundo dados da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), mais de um quinto dos portugueses sofre com problemas do foro mental, sendo a perturbação de ansiedade a mais prevalente. Sabemos que é cada vez mais difícil conciliar trabalho, vida pessoal e consequentemente tratar da nossa saúde. Temos, então, tempo para ir ao psicólogo?

Recentemente foram anunciadas mais contratações de psicólogos por parte do Estado central, como reforço e aposta na saúde mental dos portugueses (e consequente valorização dos psicólogos). No entanto, como foi sabido, a contratação limitou-se a 40 vagas, para um universo de milhares de profissionais. Segundo notícia do PÚBLICO: “As vagas abertas para psicólogos clínicos são basicamente para o Norte (17) e o Centro (17), sobrando seis para a região de Lisboa e Vale do Tejo. Já no caso dos nutricionistas, a maior parte das vagas (31) é para Lisboa e Vale do Tejo. Para o Norte há apenas duas vagas, enquanto para o Centro e para o Algarve são disponibilizados três lugares para cada, e, para o Alentejo, uma.”

A Psicologia enquanto ciência credível e profissão essencial tem muito com que se preocupar. Cabe, sim, aos psicólogos apostar na dinamização dos seus serviços, das suas mais-valias e dos benefícios de se recorrer a um profissional — seja em contexto clínico, educacional, escolar, organizacional, desportivo, de recrutamento e selecção, na justiça, na investigação criminal e em tantos outros contextos. O que falta, então, actualmente, para além de questões contratuais e burocráticas

Falta sabermos e termos como actuar sobre os dados que nos indicam que ainda apostamos na solução fácil e rápida do comprimido, que temos tendência para descurar a aposta nas soluções estruturais e de longo prazo; falta renegarmos a procura pela “solução imediata” e olharmos para a caminhada como uma oportunidade de crescimento e descoberta de novas realidades; falta, sobretudo, sabermos que, com conhecimento mais informado sobre os benefícios de uma boa saúde mental, todos temos mais a ganhar. Em suma, falta sabermos e entendermos que ir ao psicólogo não é “para malucos”.

A Psicologia vive ainda assombrada por mitos dos quais só se libertará quanto se afirmar como ciência merecedora de mais espaço público e mais valorização. Quer pelas pessoas, quer pelo legislador. Um dia, espero que para breve, ir ao psicólogo será tão natural como ir ao médico de família.”

Sintricare

Janeiro 24, 2019

Deparámo-nos recentemente na Sintricare, com o artigo “Uma análise psicológica: em busca de nossa própria alma”, de Talita Rodrigues, publicado no site brasileiro Aleteia. O título chamou-nos à atenção e parámos para o ler atentamente. Dado a pertinência do seu conteúdo, decidimos publicá-lo na íntegra no nosso blogue. Esperamos que gostem!

“Quantas vezes você já perdeu o sentido da vida?

Não raramente observamos pessoas buscando por um novo sentido ou tentando reencontrar um para viver. Dentro da Psicologia Analítica, pode-se considerar a falta de sentido e a falta de algo essencial, como “perda da própria alma”. Para a psicologia analítica, a alma pode significar um todo. Um todo que é fundamental para que sejamos completos e mais felizes.

Dentro disso, podemos considerar três fatores importantes: o primeiro, é de que a de que a alma não é superstição nem figura de retórica; o segundo, é de que a alma é uma realidade psicológica; e o terceiro, é de que a alma é vivida psiquicamente de maneira inconsciente por cada ser humano. É com base nisso que Carl Gustav Jung concebe a psique como a própria alma humana.

Pensando sobre o significado de alma dentro da psicologia analítica e do poder transformador que exerce sobre cada ser humano, fica claro que, sem ela, nós simplesmente existimos. E não se esqueça: existir não é viver.

Não raro, perdemos a nossa alma e, por algum motivo, não lembramos onde é que a perdemos e não temos força para resgatá-la e fazer dela uma alma vívida novamente, de forma que nos traga a completude que tanto buscamos.

Talvez você tenha a perdido quando criança diante das circunstâncias difíceis em que a vida te colocou, ou até mesmo quando adulto, após um relacionamento falido que endureceu completamente o seu coração. E que, desde então, você não sabe como e o que fazer para simplesmente restabelecer contato com ela.

Há centenas de pessoas pelo mundo que, neste exato momento, inconscientemente, buscam por suas almas e pela alegria de viver que só ela é capaz de proporcionar a cada um.

Buscar pela sua alma, perdida em algum momento de sua história é uma verdadeira aventura. E, como todas as aventuras, você terá de restabelecer contato com seu herói interior, afinal, haverá momentos em que você sentirá medo e sentirá que está completamente sozinho, porque precisará abrir mão de coisas que fizeram ou que se permanecem ainda, dentro da tua história, farão com que você a perca de vista novamente.

Mas, como todas as aventuras, também haverá momentos felizes, nos quais você se (re)descobrirá e se (re)inventará novamente de uma forma ainda mais bonita. E será justamente através desta (re)descoberta, (re)invenção e contato com o seu herói interior, que você terá coragem de voltar ao capítulo mais doído de sua história, no qual você a perdeu.

Lembre-se: não tenha medo da aventura de ir ao encontro de sua alma perdida, afinal, como disse Campbell (1990) em seu livro “O poder do mito”:

“Não precisamos correr sozinhos o risco da aventura, pois os heróis de todos os tempos enfrentaram antes de nós. Temos apenas que seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um Deus. E lá, onde esperávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos. Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ao centro de nossa própria existência. E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo.”

E se por acaso, nesta grande aventura, você reencontrar sua alma, por favor, não permita com que você a perca novamente. Sua alma é quem você é – e é o que dá sentido à tua jornada aqui nesta terra.”

Janeiro 10, 2019

O professor de teatro da Sintricare, Nuno Bastos, lançou recentemente o Ebook “Contos de Mundos Anexos“, numa edição Escrytos|Edição de Autor, que inclui 12 contos e está disponível para computador (PC ou Mac), tablet, smartphone e e-reader.

Pode ser adquirido por 5,99€ nas livrarias online LeyaOnlineBertrand OnlineWookKoboAmazonFnac.

Os contos do livro parece terem sido retirados aos anexos da mente ou do mundo real. Ficamos a conhecer o vizinho que pulava, o sofá novo, o homem dentro de um elevador, a bota com lama e outros acontecimentos. “Histórias estranhas? Sim, provavelmente (ou nem tanto). Havia também o outro que se arrastava e uma sala num local. Ou um comboio no seu percurso”, pode ainda ler-se na sinopse de “Contos de Mundos Anexos“.

Excerto do conto “NO ELEVADOR”:
“Estava um homem em pé dentro do elevador de um edifício onde precisei de ir. Chamei o elevador, abri-lhe a porta e vi-o. Era alto, com ar de cavalheiro e gestos delicados. Estava quase encostado à parede do fundo da cabine do elevador, de frente para a porta, e fazia pequenos e gentis gestos com as mãos, com os braços e com os dedos. Ora levantava um pouco uma mão, ora a outra, depois baixava ambas e subia um pouco um braço, depois o outro e baixava-os e passava depois para os os dedos das mãos, levantando um de cada vez para os baixar em simultâneo.”

 

Nota: Em edições de autor, Nuno Bastos já publicou também os livros “Estranhos do homem” (2014), “Aqui dentro há histórias e outras coisas aproximadas” (2014) e “Outra Personagem e os outros” (2009), entre outros textos publicados.

Dezembro 19, 2018

Ao receber esta publicidade do IKEA enviada por uma amiga… bateu-me cá dentro e pensei que era altura de falar um pouco daquilo que vou verificando na minha prática profissional e pessoal…

Vejo tantos artigos e estudos sobre o uso das tecnologias e o que de nefasto elas nos trazem independentemente da idade. Como parar este flagelo?

Pois… não vamos voltar atrás no tempo (pelo menos nesta era que vivemos), não acho que o uso seja um problema, mas como em tudo na vida, o abuso seja lá do que for (até o de estudar muito, ler muito, comer muito, beber muito, dormir muito…) é prejudicial ao nosso equilíbrio e desenvolvimento saudável!

Temos que dosear tudo na vida!

Tenho ouvido, muito mais agora, da boca dos jovens que “os meus pais não me conhecem” e tenho verificado que os filhos não conhecem as suas raízes, a sua história, as suas origens…

Não podemos continuar a argumentar que é a adolescência, ou a falta de interesse, ou a vida de hoje…

Façam um compromisso para convosco, reduzam o tempo que dedicam às tecnologias, não é proibir, não é deixar de todo, não são necessárias medidas radicais, mas é tão-somente dosear, negociar, dar o exemplo… ter algum equilíbrio!

As relações familiares vão refletir esta nova atitude … Use mas não Abuse!!!

Cristina Santos, Psicóloga e Responsável Técnica da Sintricare.

Dezembro 6, 2018

Quantas vezes pensamos que não estamos preparados para determinadas etapas ou fases da nossa Vida? Quantas vezes sentimos que andamos às apalpadelas, no escuro, em relação a vários temas? Genericamente, a resposta é: muitas. Alguns de nós estão na penumbra no campo das emoções, outros na relação com o outro, e outros mesmo na relação consigo. Somos todos diferentes, e por isso existem diferentes “desconhecimentos”.

A maturidade permite acender algumas luzes, a par da experiência e da vontade de continuar a encontrar algum interruptor. Mas o que corre menos bem é geralmente encoberto pelo manto da estratégia, algo a que nos socorremos quando estamos em sofrimento e que serve para afastar essa dor. Esse manto, ou máscara, é fundamental para fazer face aos vários desafios da vida, mas de facto, quando se torna numa segunda pele, não nos permite viver plenamente.

Assim seguimos na vida, muitas vezes sem saber o que está ao virar da próxima esquina. É como se fossemos caminhando no mundo, mas sem um mapa efetivo, um croqui que nos dê pelo menos uma ideia aproximada dos sítios que queremos visitar ou os locais onde queremos chegar. A grande dificuldade dos croquis, é que geralmente são desenhados por outros, não servem.

Os mapas, são concebidos nas alturas. E nós estamos no terreno, sem mapa, a calcorrear ruas e vielas, à procura de uma saída.

Quando somos pequeninos, vamos de mão dada com alguém. E mesmo que nos levem aos trambolhões, lá vamos indo. Quando nos largam a mão e ficamos sozinhos no mundo, sozinhos nas nossas decisões, temos de contar com a nossa bússola interna. O desafio é calibrá-la. A experiência é efetiva na utilização de uma bússola, mas é o autoconhecimento que afina esta ferramenta. Claro que a experiência desagua no autoconhecimento e vice-versa. Mas sem nos conhecermos a nós, sem conhecermos as peças que compõem esta bússola, não nos conseguimos fazer à estrada. Melhor: conseguimos, mas se a bússola não funciona, para onde estamos a ir? E se ficarmos parados no mesmo lugar no medo de nos perdemos, onde é que não estamos a chegar?

Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese.

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