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Etiqueta: mudanças

Julho 4, 2018

Há muito tempo atrás ouvi a frase “as pessoas não mudam, revelam-se”. O facto de uma pessoa mudar ou não, seja o seu comportamento, atitudes, forma de lidar com os outros, sempre obteve algum fascínio por parte do ser humano. Nas relações pessoais queremos sempre entrar no entendimento do outro e, quem sabe, moldá-lo para aquilo que queremos ou precisamos. Quando as pessoas têm tendência para nos magoar, elas revelam-se e, aparentemente, revelam o seu pior. A própria frase parece ser revestida de alguma negatividade e fatalismo. Como um fado na defensiva.

Depois ouvi que, de facto, o ser humano não muda, que a personalidade tem elementos fixos. No entanto, estamos claramente sob a influência do mundo externo, e por isso aprendi a frase: “as pessoas não mudam, adaptam-se”. Numa relação a dois o tempo ensina-nos a flexibilizar as nossas opções, atitudes e comportamentos. E aqui é importante perceber aquilo que por vezes pode ser uma ténue diferença entre adaptação ao outro e perda de individualidade. No fundo não deixamos de ser nós, mas ao procurar a adaptação plena, ao procurar que o outro goste de nós, transformamo-nos naquilo que o outro quer. Por momentos deixamos de ter a nossa identidade, desenvolvem-se relações co-dependentes. Mas a identidade está lá, embora não haja provavelmente mudança, existirá talvez uma amnésia seletiva de comportamentos. Uma escolha que se torna pesada com o tempo e uma pele difícil de despir. No lado saudável, uma boa adaptação pode promover uma grande harmonia que faz com que as pequenas coisas não se transformem em grandes batalhas.

Depois ensinaram-me outra frase: “se as pessoas não mudam, mudamos nós”. E mudar o quê? Simplesmente mudar a forma como lidamos com a não mudança do outro. E aqui podem existir tantas formas. A melhor é claramente encontrar paz dentro de nós e não permitir que as poluídas não mudanças do outro nos afetem. Se o outro continua no seu registo, se já gastámos as palavras a tentar fazer ver outros pontos de vista, se já tentámos ajudar vezes sem conta e os mesmos erros continuam a ocorrer, então é hora de aceitar. Mudamos a nossa perspetiva, aceitando que o outro é como é. Aceitar a sua infelicidade, os seus insucessos e permitir que eles fiquem com o seu dono que, aparentemente, não se quer livrar deles, ou ainda não está preparado para o fazer. Se calhar o medo de ficar vazio é tão grande que assim sempre têm alguma coisa…

Ana Caeiro, Psicoterapeuta em Biossíntese

Novembro 2, 2017

O workshop aberto “Transições – Como lidar com Mudanças”, com o objetivo de divulgar a Psicoterapia Corporal em Biossíntese, orientado por Ana Caeiro, a 1 de Novembro, na Sintricare, foi um sucesso. A este propósito, falámos com a psicoterapeuta da Sintricare, para perceber melhor como as mudanças nos podem afetar.

 

O que a motivou a desenvolver o workshop aberto “Transições – Como lidar com mudanças”?

Como psicoterapeuta, vejo este tema frequentemente nas consultas. É um tema que, para muitas pessoas traz muita ansiedade, sejam as mudanças repentinas e que não controlamos, ou as mudanças que queremos operar desde nós e que passam pela nossa tomada de decisão. Focando mais nesta última, as mudanças que são da nossa “responsabilidade”, surgem sempre muitas dúvidas e dificuldades. Podem abranger situações como mudar de emprego, terminar relações, mudar de casa… São decisões pessoais que as pessoas têm de tomar e que são difíceis! Abandonar algo que é conhecido, confortável e controlado, para algo que tem sempre um determinado grau de incerteza, acorda sentimentos de medo e insegurança e, por vezes, as pessoas preferem ficar em algo que lhes traz infelicidade ou sofrimento, mas que é previsível, do que dar um salto no desconhecido.

Considera que, hoje em dia, há uma dificuldade real em gerir e lidar com o que é novo? Na sua opinião, por que razões?

Sim, para a maioria das pessoas é difícil. O que é novo pode não ser conhecido. Vejamos o seguinte exemplo: eu posso mudar de emprego, ganhar exatamente o mesmo e ter as mesmas funções e responsabilidade. Mas vou ter um chefe novo, colegas diferentes… Onde para alguns esta é uma oportunidade, para outros é gerador de ansiedade! E também não podemos esquecer que as pessoas com um perfil mais rígido e controlador sentem mais esse desafio do desconhecido. O enfoque necessário é perceber que somos todos diferentes, cada um com a sua particularidade, e enquanto para alguns os novos desafios são ótimos, para outros são fonte de ansiedade e stress. E mesmo dentro dos que sentem mais estas dificuldades, cada um sentirá de maneira diferente e cada um terá as suas estratégias ou poderá encontrar ferramentas diferentes para lidar com isso.

Que repercussões tem, para o dia-a-dia, a forma como gerimos as transformações que ocorrem na vida?

Muitas! Porque lidar com aquilo que sai da rotina e que nos transmite segurança pode ser muito drenante a nível físico ou energético. E mesmo os próprios mecanismos e estratégias que desenvolvemos podem ter consequências. Quando, por exemplo, tendemos a “engolir” as nossas emoções para irmos para o mundo, esta contenção pode ter consequências psicológicas e físicas (somatização). Por outro lado, quando aprendemos a gerir as transformações que ocorrem na vida de uma forma mais tranquila, aceitando o que surge, os efeitos serão muito mais positivos e apaziguadores.

Qual é a perspetiva / abordagem da psicoterapia corporal em Biossíntese para lidar melhor com as mudanças?

Existem inúmeras ferramentas que podemos enumerar, principalmente relacionadas com o processo de desenvolvimento pessoal, associada a esta psicoterapia. Este é um processo de alterações a nível da nossa estrutura que demoram tempo e que têm o seu próprio processo. Ainda assim, a possibilidade de nos observarmos nesses momentos, ganhando um maior autoconhecimento, pode ser um ponto de partida. A par desta possibilidade, podemos fazer algo que parece ser simples: respirar. Quando estamos mais afetados ou ansiosos, temos uma respiração tendencialmente mais superficial. Se estivermos muito tristes e não quisermos chorar, por exemplo, sabemos que se respirarmos fundo, podemos quebrar e o choro vai surgir. Então o convite é que, nestes momentos de mudanças, possamos parar, estar connosco, e respirar um pouco, mas profundamente. Este movimento vai criar espaço e tempo, e estes dois elementos são essenciais quando somos mais impulsivos e agimos sem pensar, ou até mesmo mais emotivos, ficando na emoção sem tomar uma decisão ou ação.

Considera que o workshop aberto, realizado na Sintricare, para divulgar a Psicoterapia Corporal em Biossíntese, atingiu os objetivos previstos? Porquê?

Apesar de ser um workshop de curta duração, o objetivo era o de deixar algumas sementes, permitindo que as participantes pudessem levar algo com elas. Considero que foi possível, principalmente através das partilhas que muito enriqueceram a dinâmica de grupo e energia que se estabeleceu.