Pesquisar
Pesquisar

O Contador de Estrelas – Estrela d`Alva

Novembro 15, 2017

Ali estava ele. Só. Desolado. No meio do deserto imenso…

Areia, pedras, pedras, areia… olhar perdido no vazio.

A noite descia repentina e gélida sobre o deserto escaldante.

Então, o céu estrelado, tudo envolvia.

Só céu redondo, escuro, profundo, longínquo…

Aqui e além o brilho das estrelas e da lua davam-lhe luz.

Uma luz azul, branca, por vezes trémula, ou insidiosa e forte sobre a sua cabeça.

Silêncio… um silêncio de morte rodeava o homem.

À sua volta o deserto jazia mudo e frio.

Levantou-se um vento intenso que lhe trazia grãos finos de areia.

A pouco e pouco sentiu-se envolver por ela… morna, doce, penetrante.

A sensação era boa. Lembrava-lhe a praia… quando há muitos anos atrás ia para a praia adorava rebolar-se na areia.

Molhava-se, nadava e quando chegava à areia rebolava-se nela.

Por vezes escavava um buraco, em forma de caixão, e metia-se nele.

Cabeça de fora, coberto de areia. Era uma sensação tão boa…

Regredia assim a um mundo de envolvências, sentires, doçuras indizíveis e ondas de prazer.

A praia, a praia, aquela praia longínqua da sua infância…

Era uma praia linda, imensa, com ar selvagem e extenso areal. Rochedos pontiagudos, escarpas agrestes, mar bravio.

Por vezes, no Inverno, passava horas sentado a olhar o mar. Esse olhar descansava-o, amansava a sua dor, aplacava a sua imensa ansiedade e fazia-o mais feliz!

E o vento, batendo-lhe na face, lembrava-lhe que estava vivo.

Como era bom esse vento salgado, que o salpicava, o inundava, o despertava insistente… Acorda, acorda… olha à tua volta, ousa viver… não tenhas medo – sussurrava ele. O vento fora determinante na sua vida.

Ouvia muitas vezes dizer – “Oh que vento irritante! Este vento que desagradável!”

Não entendia. Para ele o vento sempre fora um aliado. Trazia-lhe vida, força, rumores de terras longínquas, cheiros, odores misteriosos, folhas, flores, pássaros em debandada, insectos, borboletas, pétalas perfumadas…vozes e choros, cantos e música… Ai o vento poderoso e indomável como ele gostaria de ter sido.

Do mar chegava-lhe o cheiro a algas, peixes, anémonas, de monstros marinhos ocultos e escuros, o prazer e o medo numa confusão de sentimentos que não conseguia separar.

A força do mar a sua brutalidade e poder contrastando com beleza, suavidade, doçura, profundidade…

Cada onda que ia e vinha na praia, lhe trazia um pouco de tudo: algas verdes, vermelhas, castanhas, pequenas conchas, esqueletos, ossos, espinhas, peixes mortos, lixo… e a espuma branca e etérea apesar de todos estes despojos, permanecia ali até ser levada pelo vento….

Vítor escolhera morrer.

A meio da vida, em plena crise de meia-idade, encontrava-se num beco sem saída… ou por outra, a única saída que encontrara era a morte.

Pensou numa estratégia.
Como fazê-lo? Onde? Pensou e lembrou-se do deserto. Ele adorava o deserto. Traçou um plano.

Iria para Marrocos, onde passaria uma excelente semana de férias, e faria uma excursão ao deserto.

Durante a noite iria perder-se do acampamento e de manhã ninguém o voltaria a encontrar.

Perder-se-ia até à morte.

Belo e romântico plano. Assim iria ser.

Reuniu os amigos na casa de Lisboa, sobranceira ao Tejo, onde tinha sido medianamente feliz. Fez um jantar requintado e entregou a cada um objecto da sua casa.

Disse que tinha coisas a mais e queria renovar a decoração… Os amigos um pouco perplexos aceitaram agradecidos.

– Olha se não gostarem pelo menos lembram-se de mim – O Vítor aquele chato que nos dava imensas secas quando já estava toldado. Um sonhador, um idealista…

Vítor nascera no Alentejo profundo perto de Beja. Calor sufocante no Verão, frio gélido no Inverno. Terra de extremos.

Estudara em Beja e cedo se pôs a caminho de Lisboa. Queria conhecer Mundo. Por sorte inscreveu-se na Marinha e assim correu realmente o mundo em viagens de circunavegação onde quase tudo ou quase nada acontecia.

Vítor fartava-se de tudo rapidamente.

Apaixonou-se por duas ou três sereias mas a coisa corria sempre mal…vá lá saber-se porquê?

Azar ao amor, dizia ele…

Foi, assim, ficando cada vez mais só e fechado sobre si mesmo.

Essa circunavegação sentimental acabava por levá-lo sempre ao ponto de partida.

Cada vez mais solitário… a vida ia perdendo as cores e o encanto.

Adorava chegar à varanda e ver o Tejo. Brilhante, por vezes com reflexos prateados, azuis, correndo, sempre correndo para o mar que ele conhecia.

Mas a pouco e pouco nem isso o animava…

Os escassos amigos que tinha tentavam em vão desafiá-lo para programas tentadores mas Vítor raramente se lhes juntava.

Preferia ficar em casa, a ouvir música, beber um bom vinho e sonhar.

Como seria a vida dele dali a dez anos? Nem queria imaginar.

Um quadro negro abria-se-lhe diante dos olhos, só via escuridão. Vazio. Solidão. Nada. Desespero.

O que me resta? Vou fazer a tal excursão enquanto ainda posso apreciar a paisagem e depois desapareço.

Vento e mar… e ele ali perdido no deserto. Todos dormiam, a noite ia longa e fria e Vítor continuava a deixar-se embalar por estas lembranças longínquas.

O plano estava em acção. Decorria conforme o previsto.

Tudo se conjugava para que resultasse. Lá vaguearia só, perdido até à morte.

Nesta noite longa e fria toda a sua vida se lhe mostrara como num filme em que ele era o protagonista.

Como um estranho revia as imagens, sensações, sentimentos de que se compunha a sua vida até aquele dia.

Mais uma vez embalado pelo vento, iluminado pelas estrelas e fundido com o deserto se sentia parte integrante deste espaço vazio e oco onde escolhera ficar para sempre.

A pouco e pouco uma ténue claridade rompia o horizonte. Madrugada já? Vítor perdera a noção do tempo.

Também pouco lhe importava o tempo conceito relativo e efémero a que quase todos os homens se agarravam.

O que era o tempo afinal? Será que existia um tempo? Ali estava ele fora do tempo.

Despojado de tudo, apenas protegido pela jhilaba comprada em Marraquexe, descalço, deitou-se na areia olhando o infinito.

A Estrela d’Alva despontava já, trémula no meio dos outros corpos de luz, que hesitantes se iam esbatendo no espaço.

Fechou os olhos e sentiu.

Lembrou-se de Ana… uma das suas grandes paixões, talvez a mulher com quem se sentira mais feliz.

Deixou-se levar pela mão de Ana e percorreu o tempo que viveram juntos.

Tempo mágico, de paixão e entrega como mais nenhum outro na sua vida.

Ana era pintora e escultora. De uma sensibilidade indizível… doce, meiga, envolvente… era uma mulher invulgar. De grandes olhos cor de mel, cabelos escuros, longos e sedosos, corpo esguio e elegante, ar exótico… Ana fora o seu grande amor… agora se dava conta disso… só agora.

Ana veio resgatá-lo, relembrar-lhe de como o amor pode ser doce e envolvente e nos pode ressuscitar… Onde estaria? O que faria agora?

Porque razão lhe aparecera Ana agora?

Então Vítor entendeu… Ana captara o seu desespero e viera em seu auxílio. Ana queria-o de volta à vida.

Ao abrir os olhos viu despontar a Estrela d’Alva, agora clara e luzente, iluminando tudo à sua volta.

E viu Ana, etérea estendendo-lhe a mão e sorrindo – Vem, vem dá-me a mão, regressamos juntos ao acampamento… Vamos recomeçar!

Leonor Braga